Diante de tantas noticias desencontradas sobre o Asa Branca, o site agendará uma nova entrevista com ele, por enquanto releia parte de sua entrevista na RCMagazine.

“Tinha consumido cocaína e fiquei com medo dos bois”

Por: Ney Macedo

O locutor que recebeu o primeiro Arena de Ouro da categoria teve uma vida típica de muito sexo e drogas no mundo do rodeio. Retornando ao lugar que não deixou de ser seu, ele brinca, ri, debocha e, seriamente, diz tudo aquilo que nunca revelou para ninguém.

entrevista_asabranca3Quem, dentro do rodeio, e fora dele também, nunca ouviu falar de Asa Branca? Pois é, ele ainda agita as arenas de muitos rodeios no Brasil. Aos 46 anos de idade e 28 bem vividos no rodeio, entre glórias e derrotas, aplausos e vaias, encantamento e desilusão, alegrias e brigas, muitas por sinal, Waldemar Rui dos Santos é hoje um homem muito diferente daquele que conheci em 1986 no rodeio de Macaubal (SP). Hoje calmo, ponderado, talvez até sob efeito de alguma droga que tenha tomado ao longo do tratamento que o retirou do mundo das drogas, coisa que ele garante estar definitivamente longe, Asa Branca esteve comigo por quase três horas em seção de entrevista e fotos. Posso garantir que não foi fácil achá-lo para marcar a pauta, esteve sumido pelo Mato Grosso na fazenda de um grande amigo de Barretos, mas depois de muitos contatos com várias pessoas, consegui marcar o dia. Viajou de Cuiabá (MT) a S. J. Rio Preto (SP) unicamente para atender a RC Magazine. Chegou e foi dormir cedo para que no outro dia “estivesse bonito para as fotos”, como ele próprio disse. Perguntei a ele se responderia todas as perguntas sem restrições, o que concordou plenamente, sem conhecimento prévio algum do que viria pela frente. Meu objetivo era descobrir tudo que havia de nebuloso na vida do famoso locutor de rodeio, tudo que se falava por aí sobre sexo, rodeio e drogas, portanto, era importante que as perguntas surgissem “na bucha”. Procurar descobrir tudo que ele escondia na obscuridade da vida seria impossível, além de que precisaríamos de pelo menos uma semana de entrevista para gravar tudo que ele resolvesse falar. Só mesmo um livro no futuro para relatar toda sua experiência, algo que de certa forma já poderá ser visto em um DVD que será lançado em breve com inúmeros momentos de sua carreira. Uma coisa é certa: respondeu as perguntas que muitos “homens” por aí não teriam coragem.

N – Waldemar Rui dos Santos, quem é o Asa Branca para você?
AB – Eu vivo todos os dias como se fosse o último de minha vida. Não me apego em matéria. Eu só passei a ser feliz quando me desprendi da matéria. Faço tudo o que quero. O Asa Branca é o cara que adora viver, que adora voar! Acho que combinou o apelido.

N – Você teve uma carreira meteórica, quando percebeu que o sucesso subiu para a cabeça?
AB – Eu nunca tive isso. Pode ser que algumas pessoas tenham interpretado isso, e não me conheciam. Mas quem conhece o Waldemar desde o dia em que nasceu, sabe que eu nunca sonhei alto com o sucesso. O rodeio aconteceu na minha vida porque eu amo rodeio. Eu sempre falei: só saio do rodeio morto.

N – Mas você teve uma carreira de sucesso!
AB – Tive. Acho que como todos os artistas têm seu ponto alto, cheguei a fazer novela na Globo, Mulheres de Areia, Amigos, Som Brasil, mas isso nunca me subiu na cabeça, não! Eu acho que o que levei disso aí foi só a vida que eu curti, a mulherada, a noite, que eu sempre gostei.

N – Rodeio, o nome já diz tudo, está sempre rodando. Em que volta se encontra hoje o bom e velho Asa Branca?
AB – Feliz, como eu disse, por estar no rodeio ainda. Deus me deu essa oportunidade e tem gente que fala assim: “Eu parei com o rodeio”. Ninguém para. O rodeio é que para com ele, não dá conta de sobreviver do rodeio. Eu sobrevivo do rodeio há 28 anos. Vivo bem. Fiquei dois anos parado. Não ganho muito, mas ganho para ser feliz. Curto, gasto, não quero levar nada no caixão, não.

“A droga realmente é o cão. A pior coisa que existe para um homem”

N – Drogas, mulheres e derramas. O que é verdade e o que é mentira de tudo que foi especulado pela mídia?
AB – Drogas? Usei. Graças a Deus me internei. Num dia eu parei comigo mesmo, olhei para mim e falei: “Pô, tenho tudo na vida e fico atrás desse trem”. Mas, sozinho não consigo parar. Não adianta o cara falar que ele vai parar… Aí eu me internei. Tive ajuda dos amigos. Quero agradecer o filho do Mário Covas, o Covinhas, o Boca, foram meus amigos e arrumaram uma clínica ótima onde passei oito meses, fiz amizades, fui o melhor aluno. Porque na clínica não adianta nada você amarrar e levar… Chega lá você vai ficar frustrado. Eu fui com minhas próprias pernas, entrei e falei: “Vou pegar com Deus, porque eu vou dar conta”. E dei. Fiquei oito meses lá, nunca mais usei química, não saio mais à noite, cortei as amizades que às vezes eu corria perigo, casei de novo, estou feliz no casamento. Acho que tudo tem a hora de acordar. Eu acordei numa hora que Deus me pegou com a mão e me disse: “Não, meu filho, teu caminho não é esse, não”. Estou conquistando o rodeio de volta, já fiz várias festas, este ano tem convite para todo lado e vamos pegar com Deus.

“Eu nem gosto de dormir com homem no quarto, porque só a catinga do homem já carrega ”

N – O que você buscava nas drogas?
AB – Acho que essa vida nossa de correria: vai pra lá, desce do avião, amanhã tem outra festa, é política. Eu trabalho com tudo. Não faço só rodeio. Às vezes tinha comício, na época de eleição, e dava aquele cansaço. E existiam as convivências. Caí dentro do Rio de Janeiro, moleque, porque eu vim de Turiúba (SP), fui pra escola a cavalo até os 16 anos, entendeu? Tirava leite! De repente você cai na novela Mulheres de Areia, no meio daquela mulherada. E a primeira vez que eu usei foi com uma atriz, que eu não vou falar quem é, e eu empolguei. Porque a droga, no começo, você não gosta, ela não te puxa. Depois que seu organismo vicia é que aí você quer parar e não dá conta.

N – Quais as drogas que você já usou?
AB – Cocaína e maconha. Cheguei também a fumar mescladão, que é maconha com crack.

N – Qual a sensação de um drogado? Como ele vê a vida?
AB – Depois, recuperado, a gente vê que é uma babaquice. Mas na hora é bom. Cocaína tira o cansaço, você sai para a noite, bebe uísque, não fica de fogo, “tora” as “muié”, não “cai a crista”. (risos)

N – Mas você já foi casado com mulher famosa?
AB – Não fui casado, morei junto com a Marília Gabriela. Tive algumas namoradas. Mas hoje é “ficar” que eles falam, né? (risos)

N – Com quantas mulheres você já ficou?
AB – Ah, não sei.

N – Mais ou menos. Passa de mil?
AB – Ah, acho que não, né! Mil é muita coisa (risos… Fica embaraçado com a pergunta). Mas acho que chega numas quinhentas. (risos)

N – Qual foi a sua maior loucura?
AB – Você fala no amor? Fazer amor no jato com turbulência. Nós estávamos vindo de São Paulo para Londrina num Lear Jet. Deu meia hora o cara estava baixando. Aí eu falei: “Vai até Foz do Iguaçu, faz a perna do vento e volta, pra dar tempo da gente brincar aqui legal”. É gostoso.

N – Qual a experiência?
AB – (risos) Ah, porque o avião está em turbulência, você se tromba, o medo, e a estação… Tudo junto.

N – A parceira gostou?
AB – Eu acho que sim, porque teve mais vezes, né.

N – Mas não no avião?
AB – Não, foi na fazenda, no mato é gostoso também, na cachoeira.

N – E no rodeio, qual foi sua maior loucura?
AB – Acho que foi o salto de pára-quedas em Barretos. Não pela loucura do salto porque eu estava confiante, peguei o melhor do Brasil para saltar comigo. Mas era para saltar à tarde, e a programação passou para a noite. E eu fui à noite mesmo. Isso foi a maior loucura porque o próprio comandante ficou com medo.

N – Você falou em sexo. Você tem alguma restrição ao tipo de parceiro? Pode ser homem, mulher, qualquer coisa?
AB – Não, com homem eu nunca fiquei não. A não ser quando eu era moleque, né. A molecada “rancava” o pipi para o outro, encostava no outro. Mas depois de velho não!

N – Mas esse “depois de velho” foi em que idade?
AB – Ah, uns 7, 8 anos, 10 anos (risos). Esse negócio de homem não dá certo, não. Eu nem gosto de dormir com homem no quarto, porque só a catinga do homem já carrega.

N – Quando foi o estalo: “Estou no fundo do poço”?
AB – Foi num dia que eu estava voltando de Araguari (MG), tinha feito um rodeio lá, e eu tive um problema de coluna, fui até para o hospital. Hérnia de disco. Aí o próprio médico me falou e eu abri o jogo com ele, disse que eu estava me drogando. Aí aquele dia eu já vim pra cá, liguei para os meus amigos de São Paulo e arrumei a clínica. Já “vazei” para lá. Eu me apeguei por causa de orações, mas  meu organismo estava intoxicado. Foi por isso que eu parei e pensei: “Se eu não parar eu vou terminar com a minha carreira”. O povo não gosta de conviver com essas coisas, entendeu? Não são obrigados a conviver.

N – Qual é a diferença de entrar na arena drogado sob o efeito da cocaína e de “cara limpa”?
AB – Olha, só provei uma vez e não quis provar mais. Foi em Paulo de Faria (SP). Tinha consumido cocaína e fiquei com medo dos bois. Você fica muito mal, não dá certo, não! Nunca mais fiz, só (consumia) depois do rodeio na “festaiada”, bebia no máximo quatro “uisquinho”, senão você vira “borsa de madame”.Todas as outras vezes era o Asa Branca de cara limpa, com umas quatro ou cinco doses de uísque na cabeça.

N – Qual o seu maior desejo? E o seu maior medo?
AB – Meu maior desejo é ter um filho homem, meu maior medo é não ter medo. Não tenho medo de nada. Graças a Deus, esta palavra não faz parte do meu vocabulário. Não existe rastro de onça, não!

N – Você não tira o chapéu por nada. O que ele te representa?
AB – Minha vida. (tira o chapéu e olha para dentro dele na imagem que carrega de Jesus) Olha aí, Jesus do meu lado. Ganhei do Zí Biasi (de Novo Horizonte – SP). (representa) Minha fé, meu amor pelas crianças, as minhas filhas, porque eu tenho problema com as minhas ex-mulheres e que, às vezes, me revolta, entendeu? Elas têm ciúmes de eu carregar minhas filhas.

N – Comenta-se que você está com AIDS, é verdade?
AB – Olha, eu tenho Deus no meu coração. Uns matam o Asa Branca de AIDS, outros de helicóptero. Já ligaram pra casa da minha irmã em Cuiabá e ela grávida, falaram assim: “Você não vai vir no enterro do seu irmão”? Caiu um avião em Rio Preto, e eu tinha sa ído de lá de avião… Ah, sei lá, existe muita maldade, mas Deus sabe o que faz, Ele sabe se eu tenho (AIDS) ou não

N – Essa é a nova vida de Asa Branca?
AB – É a nova vida. Sem boate, sem nada. O máximo que faço é sair pra jantar com a família. Já estou dois anos assim. Estou super feliz, disse a Deus: “Como o Senhor é bom. Quanto tempo eu tenho mais pra viver?”, porque se continuo naquela vida, tenho certeza que eu não estava mais aqui não.

“Vou pegar com Deus, porque eu vou dar conta”

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Fotos: André Silva