Há trinta anos no rodeio, ele é sem dúvida, um dos melhores profissionais da locução. Com vocês Piracicabano.

Se nós adeptos ao rodeio pudéssemos colocar um rótulo no locutor de rodeio, Piracicabano seria: Show garantido!

Há trinta anos no rodeio, ele é sem dúvidas, um dos melhores profissionais da locução,  “O Simprão” como é conhecido, narra rodeio e ainda anima o público, em festas como Rio Verde, por exemplo, a presença dele na arena é indiscutível, ele faz parte do show, são 17 anos narrando lá.

Em entrevista ao Rodeio Magazine, ele conta como tudo começou e apresenta Junior  Castro, o novo locutor de rodeio da família.

entrevistaespecial_pira1

RM. Piracicabano como tudo começou?
P: Antes de começar a narrar rodeio, eu trabalhava montando arquibancada, equipamentos de som, isso tudo na década de 80 na empresa do Dr. José Oscar, companhia J.O.
A narração aconteceu na minha vida por acaso.  Eu era funcionário da Cia e naquela época as companhias eram fechadas, elas tinham os seus peões, seus touros, seus profissionais, assim como existem nos circuitos de hoje. A Cia J.O tinha o seu locutor e em uma festa ele ficou doente e não podia narrar o rodeio, e eu como montava som para o Cavera Som, que era técnico, comecei a narrar nas passagens de som, ai o Dr. José Oscar pediu para que eu narrasse o rodeio, ele disse: “Ninguém conhece ninguém, pega você o microfone e faz.”
Eu narrei seis dias,  isso aconteceu na inauguração do Parque de Exposições em Campina da Lagoa, Paraná em 1986.

RM. E como foi essa sua primeira experiência?
P: Preocupado com o que fazer, o Cavera me deu umas fitas de narração e eu ouvia e fazia baseado no que ouvia. Peguei umas fitas do Asa Branca, porque o Asa narrava também para o Dr. José Oscar, ouvia as narrações dele e escrevia no papel, o “Abriu”, “segura” e “pode pegar”, era tudo a mesma coisa, podia ter 200 montarias, que era a mesma coisa.
Nas entrelinhas do rodeio eu seguia o que havia escrito. Falaram até para eu tomar uma coisinha para criar coragem, no primeiro dia eu tomei uma dose, no sexto eu estava tomando 4 litros, quase caí do palanque, tinha que amarrar a cinta no palanque para não cair.

RM. Como era a narração naquela época?
P: A narração na década de 80 não tinha muita coisa criativa, era política, tinha que falar mais dos organizadores, elogiar o presidente, o prefeito, era a hora de o cara aparecer. A narração era estilo Zé do Prato: aoooo menino, segura menino.

RM. Você conheceu o Zé do Prato?
P: Eu tive duas passagens com ele. Saí de Matão e fui levar a arquibancada perto de Santa Fé do Sul, e era ele quem ia narrar o rodeio, terminei de montar a arquibancada e já estava indo embora quando me chamaram e perguntaram se eu queria montar. Ai pensei: Montar com o Zé do Prato narrando,  minha montaria vai ser muito emocionante.
Dispensei o caminhoneiro  e fiquei na festa,  depois do intervalo do rodeio,  na segunda bateria era minha montaria, seria a terceira  da lista, eu montei, mas me acidentei, o boi pisou em mim, perfurou o pulmão  e quebrou as costelas, fui hospitalizado em Santa Fé.
Lembro quando fui para sala de cirurgia para colocar o dreno no pulmão me perguntaram se eu queria ligar para alguém, e eu liguei para o Dr. José Oscar, que no outro dia me transferiu para Rio Preto, e o Zé foi me visitar. Ele sentou na janela  e falava para o Dr. José Oscar: “Xará nós temos  que tomar cuidado Xará, o dia que o rodeio aparecer na TV ele corre o sério risco de acabar.” E essa é uma grande preocupação que a gente tem porque a cada dia que passa  é mais lei, é mais exigência e o rodeio em si tá ficando para trás.

RM. Então você já montou em touro?
P: Montei em touro e cavalo, quando ia para o rodeio levava as duas traias, levava também roupa de palhaço e de garçom. Então se acabasse a inscrição de boi, eu montava em cavalo, ou trabalhava de palhaço e naquela época não tinha cachê, o locutor dava uma moral, e a gente passava o chapéu na arquibancada.  Acabava o rodeio e eu ia trabalhar até amanhecer o dia de garçom para levar alguma coisa para casa.

RM. Qual a diferença de narrar rodeio da década de 80 e os dias de hoje?
P: Na década de 80 existiam poucos nomes, os mais famosos eram: Donizete Alves, Barra Mansa, Zé do Prato, Waltemir Campos e Paulinho Pena Branca. Estes sempre foram consagrados da época, então era difícil, não tinha espaço.
Quando surgiu à nova geração, Asa Branca, Tony Carreiro e muitos outros, muitos tentaram, mas poucos se mantiveram e poucos seguiram carreira. O mercado era bem fechado, tinha bastante rodeio, mas os rodeios queriam os grandes nomes, as festas queriam os locutores de ponta, não tinha espaço para ninguém, amadorismo não existia. O cara tinha que ser bom, se não, não trabalhava.

RM. Como é a locução hoje?
P: Vai muito da amizade. Hoje tá bem mais  fácil, o recurso tecnológico facilita o trabalho dos novos locutores.

RM. Uma festa que marcou?
P: Na minha jornada todas as festas que eu passei teve algo que marcou.  Mas qualquer um que narrou Barretos, qualquer um que tenha entrado naquela arena, aquilo parece místico. Só de descer aquela rampa atrás dos bretes, já dá um frio na barriga.

RM. Em Rio Verde é obrigatório a sua presença, assim como Paranaíba, como é isso?
P: Existe festa que você cria uma cadeira cativa, você se torna cidadão daquela cidade. Eu durante muitos anos narrei Paranaíba, dê um tempo para cá não narro mais por causa dos campeonatos que já tem os seus locutores. Agora Rio Verde, já são 17 anos. Cajobi também, conheço a festa desde o seu início, tanto que já fui homenageado lá. Essa fidelidade é poucos eventos que mantém. Hoje está mais viável analisar preço do que manter a tradição. O mais importante não é fazer uma festa, o mais importante é você voltar nela, aí é sinal que você fez uma coisa bacana.

RM. O que você acha dos campeonatos?
P: Falar de campeonato é a mesma coisa que dá um tiro no pé. Porque na mesma hora que você tá elogiando, você fala mal, daí a pouco você tá dentro, daí o cara não quer mais. Eu nunca fui convidado para fazer parte de um campeonato, eu não sei se eles não gostam do meu estilo, ou se eu não tenho o perfil dos campeonatos.

RM. Por que o rodeio não tem hora para começar?
P: O atraso do rodeio começa pelo presidente ou pelo prefeito da cidade, quando tudo ta afinado para começar, vem o assessor e fala: espera um pouquinho porque fulano não chegou. No meu ponto de vista o rodeio só não foi para a TV ainda porque não tem essa organização de marcar e começar. Se você vai ao cinema, você sabe que o filme vai começar às 20h e às 22hs vai terminar. O rodeio deveria ser assim, mas sei lá o público parece que não tem interesse pelo rodeio, estão mais preocupados com os shows. Você marca para começar às 21h, às 22h a pessoa vai tomar banho para ir ao rodeio. O rodeio espera gente para começar, mas se o evento for firme e falar que começa as 20h30 e começar, quem gosta do rodeio vai estar lá assistindo. Isso de horário vai dos organizadores.

RM. Nesses 30 anos de rodeio teve algum fato engraçado?
P: Entre tantos que já vive, teve um em Pirajuí que marcou.  Foi um rodeio Indoor e eu trabalhava na época com a Estância Sabiá. Eu estava todo bonitinho, a carteira parecia um X Tudo no bolso.  O legal naquela época era quem tinha a carteira mais gorda, pois era carteira que fazia a bunda do cowboy, eu estava narrando o rodeio em cavalo e justo naquele dia na minha mala tinha duas cuecas, era uma no corpo e a outra pendurada no vidro do banheiro. Naquele dia não deu tempo de lavar e eu fui sem cueca, de repente um cavalo, da companhia do Moacir Dorso, saiu e eu encostei-me à arena e o cavalo passou muito rente, e a pata dele bateu e arrancou o bolso da calça com a carteira, eu fiquei com a bunda de fora. Só me restou puxar a camisa e terminar as 20 montarias pegando ar fresco nas portas dos fundos (risos).

RM. De onde vem esse lado cômico?
P: Esse lado cômico que eu tenho, ou que as pessoas acham que eu tenho, vem do circo. Durante um tempo eu trabalhei no circo, um mundo mais louco que rodeio. Quem já viveu no circo sabe que é uma loucura. Mas ali era uma família, quando ganha todos ganham, quando não dá nada, todos estão no prejuízo. Eu tive o prazer de passar uma temporada no circo. O circo ensina muito, na mesma hora que você é a estrela do trapézio, em outra você tá vendendo pipoca, e eu aprendi muito. Tem muita gente que me pergunta: O que devo fazer? Eu falo: quem sou eu para ensinar, mas dou algumas dicas e às vezes dá certo. No circo você aprende que tem que se entregar na brincadeira, você tá ali para pagar mico mesmo.

RM.  Na arena, como é?
P: Eu não tenho frescura.  Se tiver que narrar 10 montarias eu narro, se tiver uma eu narro também, se tiver que fazer o rodeio sozinho, eu faço, peço proteção a Deus e narro. Quando eu pego o microfone para fazer uma abertura, ou o encerramento, eu não gosto de ler, nesta hora parece que uma luz divina ilumina minhas palavras, às vezes eu ouço a gravação do rodeio, e vejo que não são palavras do meu cotidiano. Eu deixo fluir a emoção, luz divina.

RM. Pira, seu filho, Junior Castro, começou a narrar, você vai se aposentar?
P: Brinca não. (risos). Eu quero narrar mais uns 50 anos ainda, depois eu paro. Eu sempre apoiei o Juninho, eu falo Juninho, porque para um pai, um filho nunca cresce. Eu sempre o apoiei nas coisas que ele quis fazer, no MotoCross, montar em bezerro, mas agora eu acho que ele encontrou o caminho dele, gostou de narrar e eu estou incentivando.

entrevistaespecial_pira4
O Rodeio Magazine aproveitou a presença do filho, Júnior Castro e entrevistou ele também. Confira:

RM. Junior esta vontade de narrar já existia?
J: Sim, já existia, desde pequeno. No rodeio de Ilha Solteira, por exemplo, com três anos de idade eu já falava boa noite no microfone. Meu pai sempre me colocou no microfone para falar. Aos onze anos narrei o Crensa, em Nova Granada, aí parei por causa do MotoCross e agora voltei.

RM. Onde foi o primeiro rodeio?
J: Em  Ipiguá, São Paulo.
P: Narrou escondido.
J:  Eu fui para trabalhar de DJ para o Dimas Tiago,  aí começaram a falar: olha o filho do Pira. E me pediram para narrar, eu disse não. Ficou aquele vai, não vai, até que me chamaram na arena, tive que ir. Era para narrar duas montarias, narrei umas oito, o presidente fazia gesto para continuar.  Meu pai viu o vídeo e eu comecei a narrar.

RM. Sente pressão por ser filho do Piracicabano?
P: Demais.

RM. Planos para o futuro?
J: Pretendo ter meu trabalho reconhecido, e se eu chegar a ser a metade que meu pai é,  já vai ser excelente. Meu pai, para mim, é o melhor locutor que tem, sem dúvida.

RM. Você tem o lado humorista?
J: Nos bastidores eu sou igual ao meu pai, somos dois moleques com a mesma idade.  Mas ali na hora do rodeio, eu levo mais para o lado profissional, mas o que tiver que fazer na arena eu faço.