Apaixonado pelo esporte se tornou Locutor

Em entrevista ao Rodeio Magazine, Dario Neto locutor de Rodeios conta sobre o começo de sua carreira e os novos tempos do rodeio.

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Fonte : Revista Domínios

RM. Como você entrou para o mundo do rodeio?

DN. Bom entrei para o rodeio no ano de 1995, na verdade foi em 1993. Eu montava em touros, porém tive um acidente, acabei tomando uma chifrada no rosto e na mesma montaria quebrei o braço duas vezes, no dia da montaria e quando o braço estava quase bom caí da cama e quebrou de novo (risos). A partir disso o médico me mandou largar mão de rodeio, como eu não queria deixar os rodeios me tornei locutor em 1995, narrei o primeiro rodeio na cidade de Medeiros-MG.

RM. Porque ser locutor de rodeio?

DN. Eu sou apaixonado pelo esporte Rodeio, e como eu já montava e não poderia mais seguir como competidor, me tornei locutor e gosto do que faço, levar um pouco mais de alegria para o povo e para mim mesmo, porque está no sangue a gente quando gosta tem que correr atrás dos sonhos.

RM. Tem alguém em que você se espelha?

DN. Tem, admiro muito Almir Cambra e o Piracicabano, eu me espelho muito no trabalho que eles fazem, procuro tirar um pouco de cada um e misturar com o que eu crio também para as coisas irem dando certo.

RM. Como foi sua primeira experiência dentro de uma arena de rodeio?

A primeira foi muito boa, aquele frio na barriga que dá até hoje, foi a certeza de que meu sonho não morria ali pois sabia que meu sonho estava apenas começando e que teria uma grande trajetória.

RM.O que mudou no rodeio, nesses 20 anos?

DN. O rodeio mudou muito nesses 20 anos e eu procuro tentar sempre voltar no tempo tocando as verdadeiras músicas raiz. Meu repertório hoje, só tem música antiga com a cara do rodeio mesmo, porque se a gente quer que o rodeio se torne uma tradição a gente tem que honrar esta tradição fazendo da melhor forma possível. As aberturas, antigamente lembro de ficar do lado da arena vendo os grandes nomes do rodeio brasileiro narrarem os rodeios, e tinha aquelas aberturas bonitas que apresentava o São Sebastião do Rodeio, com orações de Nossa Senhora, hoje tem muita abertura técnica e quase ninguém sabe que São Sebastião é o padroeiro dos cavaleiros, então muita coisa mudou e nós vamos tentando aperfeiçoar dentro da modernidade mantendo a tradição.

RM. Uma festa que marcou sua carreira?

DN. Uma festa que marcou e marca até o hoje é a festa de Colômbia, acho que se ficar sem ir lá eu fico triste (risos), por conta dos parceiros e das amizades, são muitos anos juntos.

RM. O que não pode falta em um bom rodeio?

DN. Animais de qualidade e competidores que realmente tiram palmas e suspiro do público e claro um bom locutor também (risos). O rodeio tem que se organizar porque assim é difícil dar prejuízo o que não pode faltar no rodeio é profissionalismo.

 RM. Nesses 20 anos acompanhando rodeio por todo pais teve algum fato engraçado?

DN. Vixe tem vários, mas o que não esqueço nunca é de quando narrei o rodeio de Ariranha-SP. Tinha um engenho de pinga na cidade vizinha onde ganhei um litro de uma pinga verde. Os meninos da minha equipe apelidaram de pinga do máscara e levaram essa pinga pro rodeio, eu como não bebo nada, nem experimentei, mas todo mundo tomou por mim, e na hora do rodeio essa pinga fez efeito, gente do céu (risos), deu dor de barriga em todo mundo que tomou. Alguns peões que estavam em cima do boi e que tinham bebido a pinga do máscara desciam e saiam correndo: “ ó não abre a porteira ainda não, que preciso ir no banheiro”, essa não esqueço nunca.

RM. Qual foi ou este é o seu melhor momento rodeio?

DN. Teve um momento muito importante na minha vida, quando eu morava em nova granada, cheguei a fazer 42 rodeios no ano, foi bom, mas o melhor acho que está sendo agora. Eu não faço mais 42 por ano faço 12, mas são os mais importantes, rodeios que dão o reconhecimento que a gente precisa e pagam bem, todo dia tem que ser o melhor momento da nossa vida porque se agente parar de sonhar e de almejar algo melhor a gente para de viver.

RM. O que te desaponta no rodeio?

DN. Profissionais que já tem um certo nome ir trabalhar de graça somente para estar trabalhando. Mas não desaponta só a mim, mas sim com todos os profissionais de verdade, não adianta cobrar 10 mil, para ir em um lugar e na outra semana ir de graça só para não ficar parado em casa, isso é antiprofissional.

RM. O rodeio em touros está sendo reconhecido como patrimônio cultural, porém existem os “defensores dos animais” que pensam o contrário e fidelizam a ideia sobre maus tratos, na sua opinião o rodeio um dia pode ser proibido no brasil?

DN. Ele nunca vai ser proibido, por uma razão, moramos em um país onde tudo pode quando o governo ganha um pouquinho é que o governo ainda não viu o quanto que este esporte gera emprego e o tanto que este esporte é rico. No momento em que as autoridades, deputados, presidente, etc., saber certinho o quanto que gira em um rodeio em dinheiro eles vão dar um jeito de fazer umas taxas para o pessoal pagar. E aqui é assim tudo pode desde que alguém ganhe um pouquinho. E quanto aos maus tratos isso não existe, e a cada dia que passa o pessoal está provando estão se conscientizando mais, as pessoas estão vendo que o rodeio é um dos maiores prolongadores de vida animal, pois um touro quando completa dois anos normalmente o destino dele é frigorifico, mas no rodeio a vida dele começa com dois anos e vive por muitos anos mais.

RM. Você se arrepende algo que fez, ou que deixou de fazer?

DN. Não me arrependo de nada, porque tudo que fiz foi com muito amor e até onde eu errei um dia me fez aprender e acertar lá na frente. Eu nunca deixei de fazer nada, certo ou errado a gente ajeita e vai levando.

RM. Como é Dario Neto fora das arenas?

DN. Dario Neto fora das arenas é uma pessoa igual todo mundo, sou um bom pai, acredito que sou, vivo intensamente a minha família que é meu alicerce, procura estar junto dos meus filhos esposas e amigos, procuro estar sempre feliz.

RM. O que você acha desses novos profissionais, que são mais performáticos dentro da arena, do que locutor propriamente dito?

DN. Eu descobri isso a muitos anos atrás. No dia que eu comecei a focar mais no rodeio o meu trabalho começou a ser mais reconhecido, a gente tem que lembrar que a estrela maior do rodeio é o peão, você valorizando o peão e os tropeiros, você automaticamente vira uma estrela também, sem precisar fazer performance.

RM. Você acredita que esses novos rostos do rodeio têm se preocupado mais em se divulgar com brincadeiras e animações, do que focar nas montarias que é o que deveria estar em foco? Isso seria uma inovação dos novos locutores ou uma característica para se tornarem mais conhecidos?

DN. Na verdade, o rodeio, sempre tem que ter inovações, mas sempre focando o rodeio, ou seja, o peão e o tropeiro. A brincadeira que é feita na arena sempre tem seu tempo, e quando é esse tempo, quando o touro fica parado dentro da pista, ou se tiver outro problema, aí vem a obrigação do locutor de tirar o foco dali para que as pessoas não fiquem pensando que o rodeio está demorando. O bom locutor faz o rodeio com imprevistos e quem pagou o ingresso para estar ali nem percebe que o rodeio parou porque o profissional está conduzindo da melhor forma possível.

RM. E o que você acha sobre esta nova visão de alguns locutores? Que são mais animadores de arena do que narradores de montaria.

DN. Isso acontece mesmo, tem muita gente que se preocupa em ser animador de arena e não narrador de rodeio. Existem dois tipos nessa área, tem aquelas pessoas que são locutores e tem os que são narradores. Eu me encaixo nos narradores, porque estou ali para narrar o que está acontecendo, não querer inventar algo a mais o rodeio em si já é bonito ele precisa ser narrado e falado, de uma maneira mais focada no esporte, ou seja, na nossa cultura.

RM. Para você alguns locutores ganham mais do que deveriam, considerando o restante dos profissionais do meio do rodeio?

DN. Não acho que alguns locutores ganham mais do que deveriam. Bom tem dois lados nesta pergunta, por exemplo, tem locutor que merece o que está ganhando, agora tem outros que por indicação ou amizade ganham mais do que o próprio peão que está ali montando. Inicialmente quem deveria ser mais valorizado são os salva-vidas, depois o peão e aí sim o locutor que é apenas um complemento que ajuda a fazer as engrenagens do rodeio girarem.

RM. O que um contratante de rodeio deve procurar em um locutor? Procurar o “nome” de alguém que está na mídia ou de um bom locutor que atua com competência, há algum tempo no rodeio?

DN. As comissões precisam dos dois, quem está na mídia, e quem saiba narrar o rodeio. Porque tem muito locutor que está na mídia, mas não sabe fazer uma abertura, não sabe fazer o encerramento de uma festa. Ou seja, o locutor tem que ser completo, este é o meu ponto de vista as comissões têm que buscar aqueles locutores que valorizam a festa, locutores que falam dos patrocinadores, que narram as montarias sem perder nenhuma saída, que não está preocupado em só brincar com o povo, é logico que tem que se brincar com o povo, porque é o povo que leva a gente para o rodeio, mas tudo tem a sua hora. As vezes alguns locutores chegam para falar muita coisa e acabam não falando nada.

RM. Qual sua opinião sobre as inovações em aberturas técnicas do rodeio?

DN. Eu acho que deveriam acabar, porque hoje em dia o locutor fica no fundo do bretes fazendo a oração, aí entra os locutores comerciais a voz padrão e começa a fazer a abertura técnica e eu acho que isso acaba tirando o brilho do evento, o locutor e o comentarista tem que atuar juntos,  porque o locutor fazendo a oração lá no fundo dos bretes, ele não vai conseguir passar a emoção a fé, isso tem que acontecer com o locutor olhando pro público pra fazer o povo arrepiar. Mas cada dia que passa mais o locutor fica pra fora do rodeio, ou seja, antigamente o Zé do padro entrava e fazia tudo, hoje tem cinco ou seis pra falar e depois entra o locutor. Isso eu acho errado, e outra deveria voltar até as imagens São Sebastião antigamente tinha na arena, hoje não se mais nem na queima de fogos. Os piros musicais são bonitos, mas são algo a mais, não pode deixar um piro encerrar o evento, tem que ter um locutor ali, falando, emocionando a galera fazendo todos vibrar. Quem conhece o rodeio de 20 anos atrás sabe o que estou falando.