Amor e a vontade de ir em busca de novos desafios fizeram essa amazona, super conhecida e premiada aqui no Brasil, fazer as malas há um ano

Aos 30 anos, Keyla Polizello fez um balanço da sua vida e decidiu que era hora de mudar. Com 25 anos de carreira, seis títulos do Barretos Internacional, cinco vezes campeã do Rodeio de Jaguariúna, cinco vezes campeã em São José do Rio Preto, sua cidade natal, bicampeã Nacional pela ANTT e tricampeã em Presidente Prudente, duas delas pela Federação Nacional do Rodeio Completo, ela foi seguir seu sonho e o seu coração.

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Hoje, aos 31 anos e 26 de carreira nos Três Tambores, tendo montado pela primeira vez com três anos de idade e aos cinco começado nas competições, uma vida longa no cavalo, ela está feliz e realizada com a sua decisão. Largou tudo e há um ano mora nos Estados Unidos. A cidade em que ele se baseia é Childress, no Texas, mas na verdade vive na estrada, um rodeio atrás do outro. Seu noivo é Marcos Alan Costa, ele mesmo, quarto colocado no ranking mundial de Laço Individual pela PRCA. Juntos, estão vivendo as aventuras de uma vida e cultura bem diferentes do que estavam acostumados.

Keyla escuta muito: “que vidão ai nos Estados Unidos, hein!”, mas é uma ralação, não é glamour, a vida lá não é como as pessoas no Brasil podem pensar. Ter uma história vencedora e de muitos títulos no Brasil e largar tudo para começar do zero, sem a família toda por perto, não é para qualquer um. Confira nossa entrevista!

Quando e como foi a decisão de passar a morar nos Estados Unidos?

Keyla: Foi algo de Deus! Eu conheci o Marcos Alan no Brasil, ele não tinha vindo ainda, nos conhecemos três meses antes dele vir para América. Começamos a namorar, eu não sabia que ele estava pensando em vir e um dia ele falou que ia embora. Na época, eu não tinha vontade nenhuma de me mudar. Ele veio, continuamos a namorar, ele aqui e eu no Brasil, nos víamos algumas vezes por ano. No primeiro ano as visitas foram mais espaçadas, até que no segundo e terceiro ano de namoro começamos a nos ver com mais frequência. Tanto ele ia ao Brasil como eu vinha para os Estados Unidos. Mas esse entra e sai dificulta muito na questão do visto, fora a distância e a saudade, então conversamos que teríamos que tomar uma decisão: ou ele voltava ou eu vinha.

Mesmo não tendo vontade de mudar alguns anos antes, sempre falei que tinha o sonho de correr um dia um rodeio nos Estados Unidos. Começamos a por os prós e contras na balança. Nas considerações, cheguei a conclusão que tudo que eu podia ter realizado na minha carreira de competidora no Brasil, eu realizei.  Títulos, tantas cidades desde os sete anos indo a rodeios, eu consegui alcançar meus sonhos no Brasil. Então, a decisão foi mesmo de eu mudar, eu vir para os Estados Unidos, viver essa nova vida, reinício de carreira, conquistar novos objetivos, trilhar novos desafios. Completou um ano que mudei agora em setembro, não está sendo fácil correr aqui, mas é maravilhoso. O Marcos me incentivou e me incentiva muito todos os dias, e ele também é uma das razões de eu ter vindo, estar ao lado da pessoa que eu amo. Ficamos noivos e vamos casar o ano que vem!

Você teve que suspender o trabalho com seu pai, largar tudo, como foi?

Keyla: A parte mais difícil, sem dúvida, foi largar tudo, deixar tudo para trás, foi complicado. Tem que ter no coração o que você quer, por que existem as consequências. E a grande alegria da minha vida no Brasil, em dez anos que trabalhei na empresa do meu pai, foi conseguir minha independência financeira, minha renda, meu sustento, meu trabalho, com as provas e vendas de cavalo também, e poder estar aqui sem depender da ajuda financeira da família. Foi uma decisão bem pensada. Também não me desfiz de tudo no Brasil, mantenho alguns pontos de trabalho. Quando decidi vir, coloquei tudo na balança para não ter a chance de me arrepender. Nunca sabemos o dia de amanhã, temos que pensar no futuro. Sempre falamos que estar aqui é maravilhoso, mas talvez não seja para sempre. Nada impede um dia de voltarmos, então temos que deixar nossas raízes fincadas no nosso país.

Largar tudo e vir é algo que a pessoa tem que querer muito, é abrir mão de muita coisa, abrir mão de privilégios que temos no Brasil para vir para cá, sem luxos, e viver o sonho. Eu hoje faço tudo que não fazia antes, lavo roupa, faço comida, trato dos cavalos, limpo cocheira, carrego o trailer, dirijo para todo os lugares, não tem como descansar na alta temporada. Chegamos a ficar 90 dias fora de casa nesse verão. Enquanto um dormia o outro dirigia. Aqui não é algo fácil, não é só glamour. Temos que ter uma certeza grande no coração de que queremos muito isso para poder dar certo. Deixar uma vida tranquila para buscar esse sonho, tem que querer muito, enfrentar a dificuldades e ir em frente. Cheguei aqui sem cavalo, sem pista, sem casa, sem nada, e fui conquistando aos poucos. Agora, depois de um ano já temos uma pista para treinar quando estamos em casa, um lugar para morar, estou há seis meses competindo. Tudo aqui na América é com muito esforço e dedicação.

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Quantos rodeios já foi esse ano?

Keyla: Uma média de 15 rodeios. Eu só tenho o Permit, por enquanto, então não são todos os rodeios que posso competir. Para poder comprar o Card, tenho que ganhar uma certa quantia em dinheiro. Estou aprendendo ainda. Nos rodeios onde o Marcos faz inscrição e que posso correr com o Permit, eu corro, mas caso ele tenha que ir a algum rodeio que eu não possa correr, a prioridade é dele. Está muito bem no mundial, então sempre escolhemos os rodeios que serão melhores pare ele somar pontos e quando dá certo, eu também corro. Provas eu já fui em umas dez, mais ou menos.

Como esta sendo essa nova vida, aprendizado, outra cultura, ou estilo de eventos?

Keyla: O aprendizado é inexplicável! Aqui não existe vaidade, fico um a dois meses na estrada, sem luxo, sem ir ao salão fazer as unhas, por exemplo (risos). É outro estilo de vida, outra cultura. Poder ver todos os dias as americanas correndo tem me ensinado muito. Elas vivem do dinheiro que ganham nos rodeios, são profissionais. De 200 meninas no rodeio, 180 cavalos são excelentes e ganha quem errar menos, todas tocam muito bem, é incrível, é lindo de ver. Não achava que era desse nível.

O que mais você curte nos rodeios ai?

Keyla: Ah, é o calf roping, porque acompanho sempre o Marcos, estamos sempre juntos com o pessoal do laço. Então eu curto demais acompanhá-los. Os amigos que fizemos, Stran Smith, Travor Brazile, Tuff Cooper, a família deles é a nossa família aqui. Então sempre estou ligada no laço e no tambor, também.

Qual sua maior dificuldade?

Keyla: A dificuldade é me adaptar a outra realidade. Não tenho tempo para treinar, por exemplo, vivemos na estrada. No Brasil, a gente tinha a semana toda para treinar, para corrigir os problemas com o cavalo, para conhecer melhor as nossas montarias, mas aqui não podemos. É colocar o cavalo no trailer e quando chegamos a um rodeio, tem que estar tudo pronto para entrar na arena. Em provas, até dá para fazer uma passada teste, mas nos rodeios não. Correr sem treinar está sendo uma fase de adaptação grande. Cavalo derrubou um tambor, no Brasil passava a semana trabalhando nisso. Aqui é: levanta a cabeça e vamos para outro rodeio no dia seguinte fazer uma nova passada. Minha maior dificuldade é essa, a adaptação a esse estilo. As regras também têm uns detalhes bem diferentes, que é a cultura daqui. Estou aprendendo muito. Os primeiros quatro meses foram os mais difíceis, mas hoje está um pouco melhor, entendo um pouco mais dessa realidade.

Qual melhor resultado?

Keyla: Foi a pouco mais de um mês, em Fort Worth, fiquei em terceiro lugar na primeira vez que competi nessa égua que estou agora, a minha Índia. Fomos a três rodeios só. Em Abilene, de 120 meninas, ficamos na 15ª colocação, no meio das melhores do mundo. Não ganhei dinheiro, mas saí de lá com o sorriso de orelha a orelha, fiquei feliz demais. Estamos nos acertando na pista.

Deixa uma mensagem para quem tem o sonho de fazer a mesma coisa que você, vale a pena?

Keyla: É um sonho e você tem que acreditar acima de qualquer coisa nessa vida, de qualquer outra prioridade. Tem que ouvir o que Deus tem para você. Antes de vir pra cá, eu ouvi Deus falando comigo, me assegurando que estaria do meu lado. Na vida, temos que colocar Deus à frente de qualquer outra coisa. Então vale a pena sim! Mas tem que ter ‘sangue nos olhos’, acreditar, ter fé, aqui não é fácil. E acreditar que Deus tem um propósito para sua vida. Quando as adversidades chegarem, lutar para seguir em frente e não desistir!

Fonte: Cavalus – Por Luciana Omena

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