A história paralela a vitória de Rafael Marcelino no Circuito Rancho Primavera

Rafael Marcelino, de Ribeirão dos Índios (SP), foi o grande campeão da temporada 2017 do Circuito Rancho Primavera.  Foi o campeão também da etapa final na Festa do Peão de Quintana (SP), palco a final do CRP.Conheça sua história, sua carreira, o que ele passou para chegar até a fivela de campeão do Circuito Rancho Primavera.

Foto: Ricardo Mariotto

Foto: Ricardo Mariotto

Foto: Ricardo Mariotto

Quando o dia amanheceu no dia 18 de dezembro, Rafael Marcelino ainda estava em Quintana, levantar, arrumar a mala, organizar a chácara que tinha alugado, para ficar com a família e voltar para casa.

Diferente da viagem de ida que era rodeada de expectativas, incertezas e ansiedades, agora a viagem de volta era com sorrisos, histórias e a tão cobiçada fivela de campeão do Circuito Rancho Primavera temporada 2017.

FAZENDA SANTA HELENA

Porém, esta história começou há muito tempo atrás, na Fazenda Santa Helena na cidade de Ribeirão dos Índios (SP), região de Presidente Prudente, onde viveu 25 dos 29 anos de idade.

Hora em um lombo de um cavalo, outra hora em cima de um trator, ou as vezes no chão fazendo cerca, ou tocando gado dentro do curral. Quem trabalha em fazenda é assim, não tem mesa, setor ou repartição, é literalmente serviços gerais, foi lá na fazenda que começou a história dele, Rafael Marcelino e seu Irmão Cláudio Marcelino “Juninho”.

Os irmãos começaram a treinar juntos e com incentivo do pai, Claudio Marcelino de Montanha. Sabemos que a vida no campo nunca foi fácil, ter as coisas, como uma bota nova, por exemplo, era algo caro e raro, seu pai, para incentivar os filhos montar falava: “Quem montar nesse bezerro e vencer, ganha uma botina”

A botina não vinha, porém, os tombos vieram, e muitos, ao mesmo tempo, o pai, o Sr. Cláudio, que continua na fazenda até hoje, mesmo sem saber, estava criando campeões.

ENTRE O RODEIO E VOCÊ

Rafael Marcelino poderia ter uma carreira relâmpago, começou junto com irmão, treinando nas fazendas e o irmão (Cláudio) foi em definitivo para o rodeio e ele (Rafael) ficou.

Na teoria ele parou um ano, na pratica ia nos rodeios perto de casa, onde ele ia e voltava.

Marcelino viveu na pratica a letra da música “Entre o Rodeio e Você” de Brenno Reis e Marco Viola. Deixou de viajar em razão de um relacionamento da época, mas, quando teve que escolher entre o rodeio e o relacionamento, a resposta você já sabe.

Caiu na estrada, começou a participar para valer dos rodeios, no começo, mais na região. Em Emilianópolis (SP), cidade vizinha, entrou em primeiro lugar de nota na final e caiu, foi para Adamantina, um rodeio maior, ficou em terceiro lugar, próxima parada foi Iacri (SP) veio o título de campeão

“Quando venci esse rodeio, lembro até o nome do boi, Elemento Surpresa, que era um touro comentado na região, eu tive a certeza que queria o rodeio, e daí em diante sai da fazenda e fui só para o rodeio, fui para valer, esse rodeio foi meu começo com o Rogério Paitl, que não tinha campeonato, mas já organizava rodeios, meu começo foi praticamente lá”

PINOS ASSUSTADORES

Marcelino não teve uma carreira com muitas lesões, porém, uma foi o suficiente para assustá-lo, a ponto de ele pensar que não voltaria mais a montar em touros.

Na época, ele estava na Ekip Rozeta, e quebrou o braço, uma etapa antes da final que seria em Fernandópolis.

“Primeiro, veio a chateação, eu queria montar naquela arena (Fernandópolis), depois veio o susto, porque eu operei e não vi nada, quando tiraram a tala e eu vi meu braço, me bateu um desespero e eu achei que nunca mais montaria em um touro, depois o médico me acalmou, e me explicou que não teria mais perigo, mesmo com doze pinos o braço ficaria bom, e ficou, nem lembro que quebrei”

DECISÕES QUE INFLUENCIARAM NO TÍTULO

A vida do atleta de montarias em touros está toda focada no seu físico, claro que o psicológico, pode ou não ajudar, mas o físico é a estrutura principal e, um campeão, como Rafael Marcelino, precisar chegar voando em cima dos touros, como ele chegou para ganhar uma fivela como a do CRP. Não conheço nenhum campeão que não montou muito, para conquistar a fivela, não foi diferente com Marcelino.

“A primeira decisão que tomei, foi parar de beber. Nunca bebi para montar, mas bebia depois que montava e, não adianta falar que isso não atrapalha, seu corpo não é mesmo no outro dia, então decidi abandonar em definitivo, não beber mais, e isso ajudou muito, senti no meu corpo, por sempre estar leve, foi uma decisão significativa para eu ganhar esse campeonato”

E as decisões não pararam por aí, durante a final, tentei falar com Rafael para uma entrevista, não consegui, ele sumiu dos grupos de WhatsApp.

“Levei minha família para uma chácara que aluguei, mas não levei o celular, deixei ele de lado, não respondi, nem atendi ninguém, quis concentrar, viver aquele momento, em off, desligado do mundo. Quem eu precisava conversar estava ali, meus pais, meu irmão Daniel, minha esposa e alguns amigos que escolhi para estar comigo na chácara. No fundo dos bretes eu era o mesmo, mas quando acabava, eu voltava para meu canto, minha concentração, foi uma decisão certa”

Entre tantas decisões, no ano de 2017, Rafael Marcelino também decidiu casar.

“A Ana Cristina (minha esposa) teve toda participação nessa conquista, ela sempre foi minha confidente, fazia eu levantar a cabeça nas horas difíceis. Casar com ela foi uma decisão muito importante, inclusive, na decisão de parar de beber, pois, eu sustento minha casa, minha renda é do rodeio, então eu precisava estar pronto para tentar trazer todo o dinheiro que pudesse, e ela me ajudou com isso, sou feliz com ela, e ela me dá todo suporte que preciso, foi algo que posso classificar uma benção na minha vida casar com ela.

TEMPORADA 2017

Rafael Marcelino, viveu muitas coisas nesta temporada, ao mesmo tempo que começava a montar aqui no Brasil, seu irmão fazia sucesso nos EUA e ele foi tentado a montar na América, a convite do seu irmão.

Continuou a montar, no CRP com a cabeça nesse objetivo para 2018, porém em 2017 precisava participar de uma etapa da PBR Brasil, precisa de um cartão para no futuro tentar a vida na América.

Logo depois de sua primeira vitória na temporada no CRP, em Palmital (SP) Rafael Marcelino, teve que abandonar uma etapa para competir em Maringá, mil pontos de suspensão e ficou para trás, no ranking.

A diferença para Fabrício, foi crescendo e Marcelino teve que fazer um segundo semestre de recuperação, tanto que, ele quebrou o recorde de vitórias, sendo o único competidor a vencer cinco rodeios em uma temporada.

“Eu sempre acreditei, sempre pensei na vitória, jamais joguei a toalha, mas, em certo momento e percebi que se fosse para vencer seria difícil, como foi, era uma boa diferença. Quando venci o rodeio de Junqueirópolis (SP), eu percebi que a vitória era possível, sempre acreditei, mas daquele rodeio em diante, passei a sentir ela mais perto, foi o gás que eu precisava, e foi assim que as coisas aconteceram”

Entre tantos touros e montarias, Marcelino falou da montaria que ele assiste toda semana e do touro que ele venceu que foi o mais difícil

“A montaria do Cassununga, da Cia Paulo Emílio, no Colorado (PR) foi a mais perfeita que fiz nessa temporada, assisto toda hora, perdi a conta, mas gostei de ter vencido um touro, o Sabor Goiano, do Guilherme Barreto, é um touro difícil de ser vencido. Agora eu tenho a mesma opinião dos touros competidores sobre o ‘Sistema’ da Cia Tercio Miranda, ele para mim não é apenas o melhor touro do Campeonato, e sim do Brasil, ainda não montei nele, mas não estou com vontade não (Risos) ”

Algumas surpresas agradáveis aconteceram também para Rafael Marcelino em 2017, como a vitória em Oriente (SP)

“Eu não esperava ganhar aquele rodeio, entrei na semifinal em oitavo lugar, aí as coisas já mudaram, entrei em terceiro na final, ainda tinha dois competidores para montar, eles caíram e eu venci, eu tinha uma nota baixa do primeiro dia, então realmente eu não esperava, foi ali que assumi a liderança e passei acreditar mais ainda na vitória”

Olhando o panorama, a vitória de Rafael, sua confiança, podemos até achar que ele não sofreu pressão, mas, ele nos explica o momento de maior angústia na final do CRP

“Quando Fabrício venceu o touro dele na semifinal, não tenho certeza, mas acho que ele passou eu na soma de notas do rodeio, ou ficou bem próximo, naquele momento, eu tinha que montar Hebreu da Cia Guilherme Barreto. Cara! Ali eu degustei, senti, a tal da pressão, foi uma montaria muito difícil para fazer, eu sabia se caísse, podia me complicar, então, a pressão sobre mim existiu sim, nessa montaria”

E pressão como Marcelino disse, não parou por aí, na final quando foi montar, ele já era campeão do CRP, mas ainda tinha que tentar o título da final em Quintana, que daria a ele além da fivela da final, a condição de ser o único competidor a vencer cinco etapas na temporada, até que uma palavra do Rogério Paitl, comentarista desmontou Rafael

“Quando o Rogério disse (Seu irmão está assistindo lá nos EUA), eu comecei a chorar, chorar, e não parava, eu pedia a Deus para retomar o fôlego, Juninho, faz muita falta, sempre fomos muito juntos e todo esse amor e sentimento de irmãos, aflorou naquele momento, mas Deus me ajudou e recuperei o fôlego para poder terminar o trabalho”

“Depois da final ele (meu irmão) me ligou, confessou que chorou lá, choramos juntos, foi emocionante. Foi um final de semana quase perfeito, só faltou ele ali para abraçar”

“Eugênio, eu ganhei um bom dinheiro, ganhei a fivela, mas cara, quando meu pai me abraçou na arena e disse que tinha orgulho de mim, não há dinheiro, não há fivela, não há nem título mundial que pague isso, a brincadeira dele, de oferecer botina para eu e meu irmão montar nos bezerros, resultou nessa vitória, em todas as vitórias do meu irmão, ele foi e é minha base, junto com minha mãe, foi um final se semana de fortes emoções”

“Eu tinha a intenção de deixar o CRP para tentar minha vida na América, me negaram o visto. Minha intenção de ir para os EUA, não terminou, mas independente do que acontecer, essa vitória deixa um legado, de Rafael Marcelino no Circuito Rancho Primavera, comecei minha carreira aqui, estava no primeiro campeonato, fiquei uma temporada fora, voltei, me acolheram de novo, e agora consegui este título, estou muito feliz e aproveito a oportunidade para agradecer o Rogério Paitl, quem é próximo dele, sabe o quanto ele luta para fazer as coisas com qualidade e organização e, tentar sempre dar uma boa grana para o competidor, só tenho a agradecer e, aproveito para dizer que continuo por aqui em 2018”

Após a vitória, e cerimônia de arena, Rafael voltou para a chácara. Comemorou, perguntei a ele se ele tinha bebido, ele disse que só um gole de champanhe e disse também que esse ano já deu. Não monta mais, vai só descansar.

Na verdade, ele não teve tempo para descansar, já que passou o dia todo respondendo as mensagens de celular, uma vez que ficou quatro dias sem olhar para ele.

“Quando venci o último touro, da final, o Camarote, era como se eu tivesse usado minhas últimas forças de 2017, meu corpo está cansado, foi uma vitória difícil”

“Sabe porque foi difícil? Porque eu disputei contra os melhores e no fim, contra ….não posso usar essa palavra ‘contra’, disputei com meu amigo Fabrício Rodrigues, foi o cara que mais me ajudou a temporada toda, ele foi um batalhador, sofreu muito com essa contusão, se isso não acontecesse, tenho certeza que quem estaria contando essa história seria ele, mas mesmo assim, ele foi um leão, não entregou os pontos, vendeu caro essa vitória, dedico a ele também essa conquista, porque de certa forma, ele participou, ajudou, viveu isso comigo, e tenho certeza que está feliz por eu ter essa fivela, e eu estaria feliz se estivesse com ele, mas infelizmente só um ganha” Concluiu Cláudio Marcelino.

CAMPEÕES DO CRP TEMPORADA 2017

Campeão Etapa Quintana: Rafael Marcelino

Campeão Temporada: Rafael Marcelino

Competidor Revelação: Lucas José

Melhor touro etapa Quintana: Rei da Safra

Melhor touro da Temporada: Rei da Safra

Melhor Boiada Quintana: Cia Tércio Miranda

Melhor boiada temporada: Cia Tércio Miranda

Por Eugênio José – MTB: 67.231/SP

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