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Neyliowan Tomazeli competia nos rodeios com um único objetivo: VENCER. Confira a entrevista dele ao site Rodeio Magazine.

Eu tinha o sonho de aparecer na revista igual gente famosa, quando me dei conta eu estava ali cercado de celebridades e não era eu quem queria tirar fotos com eles, eram eles que queriam tirar foto comigo. Neyliowan Tomazeli sobre a novela América.

entrevista_neyliowan4Aos trinta e seis anos, Neyliowan Tomazeli, com jeito simples de menino brincalhão, se mostra um homem sério ao falar de tudo que passou no rodeio. Foram sete anos montando em boi, segundo ele bem vividos. O rodeio deu a ele tudo: fama, vitórias, títulos, dinheiro, status e até uma segunda chance de escolha de vida… Quem não se lembra da cena dele sendo arremessado  no rodeio de Jaguariúna, SP, pelo touro Bandido, Cia Paulo Emilio? Neyliowan foi noticia, deu nome ao boi.  A repercussão foi tanta, que a autora Gloria Peres, o convidou para participar da novela América. Neyliowan deu vida ao personagem Tião, interpretado por Murilo Benicio. O menino que dizia ter medo de gente, enfrentou grandes duelos em cima de marrucos de uma tonelada. Neyliowan competia nos rodeios com um único objetivo: VENCER.

Confira a entrevista dele ao site do rodeio Magazine:

RM: Ney, quando você disse: quero ser um competidor de montaria em touro?
N: Quando criança, eu e meu irmão brincávamos com os bois. Brincar com os bois era a nossa diversão, eu tinha medo de gente. Se chegava uma menina perto, fazia até xixi nas calças de medo, vergonha. Eu tinha medo de gente, mais não tinha medo dos bichos. Gostava de brincar de montar em bezerro.

RM E como foi que você começou no rodeio?
N: Foi difícil, mas no primeiro rodeio que fui – com traia toda emprestada – ganhei o rodeio, ganhei uma moto. Naquela época muita comissão de festa ia para assistir o rodeio, conhecer os competidores, e como eu me destaquei logo no inicio, quando eu ligava e pedia convite a pessoa já me dava.

RM Você montou em rodeio por quantos anos?
N: Por sete anos, comecei em 1.997 e parei de montar em 2004.

RM: E prêmios, quantos foram?
N: Foram muitos… 11 carros, 29 motos, 2 camionetes e muitos prêmios  em dinheiro. Ganhei muito dinheiro, o rodeio me trouxe tudo, comprei terra, ajudei meu pai, minha família.

RM: Barretos foi o título mais importante?
N: Foi. Ganhei Barretos em 1.999, tinha só dois anos no rodeio. A repercussão foi muito grande. Na primeira vez que fui montar lá já ganhei. Depois do título já me pegaram, colocaram num avião, nunca tinha ido a São Paulo, meu Deus, entrar no avião então. Eu via as coisas e ficava assustado.

RM: Depois de Barretos veio a carreira internacional, como foi?
N: Cheguei lá..! Foram 12 horas no avião, nem no banheiro eu fui, não levantei no avião por nada, fiquei quieto, nem conversava. Tem gente que fala que é melhor andar de avião do que montar no boi, de jeito nenhum, eu prefiro montar no boi, no boi a gente tem para onde correr, no avião não. Cheguei nos Estados Unidos morrendo de medo, no primeiro rodeio cheguei e pensei: Meu Deus o que eu to fazendo aqui, tô do outro lado do mundo, o que eu vim fazer aqui? De tanto medo de fazer feio, de cair, parei no boi e ganhei o rodeio. O couro do boi parecia uma parede de tão dura.

RM: Foi muito difícil?
N: Ah eu não sabia conversar, pedir comida. Minha mãe é professora de inglês, mais a gente não presta atenção na hora que tem que prestar, por isso que depois faz falta, a gente não escuta e depois toma. Não sabia o nome do boi, ficava perdido. A minha sorte era um amigo, o André Metzer, ele tava sempre junto comigo, se não fosse ele, eu não sabia nada. Mais fiquei lá, ganhei bastante dinheiro.

RM: Mais o medo foi só no primeiro rodeio?
N: Sim, depois me diverti bastante, fui andar de limusine, pensei meu Deus que carro bonito é esse? Mais minha vida não era lá, um frio que me cortava no meio, o tempo mais longo que fiquei lá foram 40 dias.  Foram sete vezes que fui para lá. Ganhei 3, 4 rodeio, entrei em todas as finais, só não entrei na final mundial porque não participei  de todas etapas, participava de uma ou outra.

RM: Acidentes sérios no rodeio, quantos foram?
N: Foram dois. Um no touro Bandido, que levou a novela, levou a tudo quanto é coisa e o outro foi no touro Jogo Bruto, em Guararapes, SP. Os outros acidentes foram todos mais leves, nem conto como acidente. No Bandido quebrei a coluna, fiquei 9 meses parado e no  Jogo Bruto, tive um Coagulo no Cérebro, fiquei 11 dias em coma. Todo mundo tava já indo para o meu velório, queria saber a hora, local, que horas que o corpo ia chegar. Chegar o que? Eu tava vivo e muito vivo e dando trabalho até hoje.

entrevista_neyliowan2RM: Touro Bandido?
N: Eu não posso reclamar de nada. O Bandido foi uma repercussão muito grande. Para mim foi difícil, me machucou, eu não conhecia o boi. Dei nome ao boi. Por causa dele fiz a novela América, da Gloria Peres. Através do Paulo Emilio o André Dias me ligou, me convidou para participar da novela, ai pensei porque não? Fui de São José do Rio Preto para São Paulo e de lá fui para o Rio de Janeiro. Cheguei ao aeroporto, o André estava me esperando. Perguntei a ele onde eu ia ficar ele me disse que ia ficar num hotel, com elevador. Ai eu disse negativo, to pegando o avião de volta.  Ai ele me levou para casa dele, fiquei 15 dias, conheci o Projac, os artistas.

RM: E a novela?
N: Foi muito bom, eu jamais pensei em ir ao Rio de Janeiro, quanto mais participar de uma novela.

RM: E como foi estar no meio destes artistas?
N: Fiquei um pouco apavorado, mais foi tranquilo. Fui à festa de lançamento, cheio de artistas e ao invés de eu ir conhece eles, eles que vinham me conhecer, tirar foto, eu nem sabia o que falar. Eu pensava meu Deus onde é que eu to. Jesus me trouxe aqui.

RM: E como foi sua relação com André Dias, diretor da Rede Globo?
N: Foi ótima.  Fiquei bastante amigo da família do André, eles me perguntavam sobre tudo, eles faziam muitas perguntas, nunca tinham visto uma vaca. Eu explicava tudo para eles com a maior alegria. O André me levou na casa da Gloria Perez, ela morava de frente para o mar, eu não conhecia o mar, eles falavam para eu entrar. Ai falei, vou entrar nesse rio..! Não sabia que a água era salgada, enchi a boca de sal.

RM: E a sua relação com a Gloria Perez?
N: A Gloria é uma pessoa que realmente se importa com as pessoas. Semana passada me ligou só para saber como eu estava, se estava montando? Ela me conheceu naquela época que eu estava no auge e ainda se lembra de mim. A primeira vez que eu tive contato com ela, ela queria saber tudo, eu ia falando e parece que ela já estava montando a história da novela na cabeça.

RM: Depois da novela qual foi a repercussão?
N: Foi muito legal, quando chego no Mato Grosso, numa cidade bem pequena, todo mundo quer me conhecer, todo mundo fala o homem do bandido tá aqui, a molecada fica me rodeando. Não desfaço de ninguém.

RM: Depois do acidente com o Bandido você pensou em parar de montar?
N: Mais de jeito nenhum! Ai que meu deu mais força. Voltei a desafiar o touro em 2003, na festa do peão de Barretos, fui com mais adrenalina pra parar nele, fiquei 5.2 segundos.

RM: O Paulo Emilio pediu para você não montar?
N: Não. Eu acho que ele ficou com medo, porque eu tenho opinião, eu vou no rodeio para ganhar, para vencer. Amarrei a mão, até brinquei para não apertar muito o sedém, para ele não se jogar em cima de mim. Pedi para abrir a porteira, ele deu um pulo muito difícil e logo caiu no chão. Pensei: será que ele vai me jogar de novo para cima? Mas graças a Deus o salva Vidas já me ajudou a sair. O Paulo Emilio ficou bravo, eu queria montar de novo, e ele falou que eu já tinha caído. Falei para ele: Eu não to cansado e nem boi, volta o boi no brete que eu monto de novo.

RM: O Bandido era diferente?
N: Ele era diferente. Quando um boi tava dando 2 pulos ele já tinha dado 4, o tamanho, a força, ele era diferente, era muito rápido.

RM: E o segundo acidente como foi?
N: Foi no rodeio de Guararapes. Na sexta feira, eu levantei e falei, não vou montar no rodeio não, tava com uma dor no coração, não fui! No sábado acordei bem, liguei para o pessoal – era o campeonato PRT – perguntei se podia ir no rodeio montar, e eles disseram que sim, que eu faria duas montarias na noite, montei e  já fiquei em primeiro de nota. No domingo, fui montar no touro Jogo Bruto, ele era invicto, ele me mandou o chifre, o que resultou num coagulo na minha cabeça, cai no chão e fui para a outra vida. Nossa senhora desceu até mim e disse filho quem cuida de você agora sou eu, não se desespere. Depois de 11 dias a imagem de Jesus apareceu e disse que eu podia voltar. Eu estava lá em cima, não gosto de falar sobre isso porque é um segredo entre eu e Deus. Eu só falo porque tem muita gente que não crê nele, mais ele existe de verdade.

entrevista_neyliowan5RM: Depois disso você decidiu parar?
N: De jeito de nenhum! Depois de 20 dias, estava em casa, já tava no curral tirando leite, comecei a montar nuns bois em casa.  Ai fui para o rodeio, era a final da PRT, em Brasília, fui para lá… Descendo do avião, levei um tombo, falei: Meu Deus o boi não me matou, vou me matar sozinho. Cheguei no rodeio para vestir a calça, minha perna estava tremendo, pensei: meu  Deus o que eu to fazendo aqui?  Os meninos falavam Ney você é louco. Louco o que ?  Montei no boi, levei uma esfolada, pensei ambulância de novo não aguento, ai fui pra casa do Juliano Domingos, fiquei lá e não montei mais no rodeio. Fui ao médico e perguntei: Dr.º minha cabeça ta devagar, eu tenho que parar de montar?  Tava me sentindo estranho. Fiz uma ressonância, não deu nada, ele disse menino o tempo vai te curar. Ai dei um tempo, minha mãe começou a falar para eu parar, que não precisava mais, já tinha tudo. E foi.  Ainda hoje  brinquei com ela, falei, mãe vou montar na Sela Americana, eu não caiu do cavalo de jeito nenhum, ela fica louca… Mas quem sabe se ainda vou dar trabalho para a “peonada” da Sela Americana. A ignorância da gente é muita, eu vou no rodeio para parar os 8 segundos.

RM: Você pensa em voltar a montar?
N: Olha… se eu voltar ninguém me segura, eu sempre fui no rodeio para ganhar, se eu voltasse tenho certeza que ia dar muito trabalho para essa meninada de hoje, não volto pela minha mãe, também já ganhei tudo que tinha para ganhar. Se não fosse o acidente com o touro Jogo Bruto, talvez eu estivesse montando até hoje.

RM: Quando um peão para de montar ele senti muita falta, você não sentiu?
N: Não. Hoje eu tenho a boiada, Graças a Deus, mexo com bois direto, quando sinto uma peniqueria nas pernas, por vontade de montar, fecho boi, eu mesmo aperto a corda, puxo o sedem, abro a porteira e saiu em cima do touro.

RM: E você para os segundos?
N: Paro e muito bem.

RM: Você sempre teve sorte?
N: Não. Eu sempre fui determinado, nunca tive ajuda de ninguém. Uma vez num rodeio, eu montei muito bem, mais o juiz disse que eu estava montando nos nó, meu Deus eu nem sabia o que era aquilo. Me deu nota zero, eu chorei a noite inteira.  Num outro rodeio, montei muito bem, tirei 92, esse mesmo juiz veio, me pediu desculpas falou que não sabia que eu montava tão bem.

RM: Algum fato importante que você viveu no rodeio?
N: Uma vez eu fui no rodeio, eu e meu irmão,  bem no começo, a gente não tinha muito dinheiro, o pai não dava, e para não gastar, a gente dormia atrás da camionete, para não gastar com hotel. Ai um peão chegou em mim e perguntou se eu não podia arrumar um dinheiro para ele pagar o hotel que ele estava, eu não soube falar não, dei o que tinha. Ele estava em primeiro de nota e disse que assim que ganhasse o rodeio me pagava. Na final ele caiu e eu que não estava tão bem de nota ganhei o carro. Ele foi embora e não pagou, mais Deus foi bom demais comigo deixei quieto.
RM: Você ia para o rodeio determinado a ganhar?
N: Eu sentia que tinha a obrigação de ganhar, eu sempre fui para ganhar, eu sempre chegava em casa com uma moto em cima da camionete, o pai ficava feliz demais, quando não chegava com a moto o pai já falava vixe não virou nada.. Uma vez num rodeio, na semifinal, o boi pisou na minha perna, e naquela época outro peão não podia montar no lugar, na final os meninos me ajudaram a subir em cima do brete, depois em cima do boi, falei para o dono do boi, eu só vou descer do boi quando ele parar de pular, a não ser que ele me derrube antes, quando o boi parou de pular eu me joguei no chão, e os meninos me tiraram da arena. Eu sempre fui para cima.

RM: Tem algum competidor que você gosta de ver montar?
N: Tem um menino que eu estou ensinando ele a montar, é o Juliano Rocha, de Floreal, ele tem um estilo bem parecido com o meu. Gosto também do Valdiron e do Palermo.

RM: E qual o recado do Neyliowan para essa meninada que se espelha em você?
N: Ninguém é melhor do que ninguém. Tem que ter muita fé, ser determinado que você consegue tudo o que quiser. Minha carreira começou do nada e me levou a tudo.

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